Texto do nosso crítico-residente Tristan Trémeau fazendo um balanço da experiência

Há três décadas a vida dos artistas está muito menos sedentária, e bem menos identificada com o ateliê e fixada neste como lugar exclusivo, físico e meditativo de trabalho. Isto se deve não apenas às evoluções e mudanças das práticas pelo surgimento de novas mídias que, indo desde a fotografia e o filme até a performance e a instalação, introduzem novas perspectivas estéticas e envolvem a exploração de outros espaços, ao mesmo tempo de criação e de exposição –sejam ou não esses espaços identificados a priori com um espaço artístico. Além da extensão destas práticas, a globalização da arte contemporânea desempenhou e continua a desempenhar um papel fundamental na transformação das experiências dos artistas, através da proliferação de museus, bienais, feiras, centros de arte públicos ou privados, de fundações e de programas de residência de artistas (da América Latina ao Sudeste Asiático, do antigo bloco comunista aos Emirados Árabes…). As residências testemunham, talvez mais do que qualquer outra estrutura,estas evoluções, uma vez que,com seus diplomas na mão, muitos jovens artistas estão agora tentando conseguir uma residência no exterior para obter um primeiro reconhecimento de seu trabalho e entrar no “mundo da arte”, através do encontro com outros atuantes, sejam eles artistas, críticos de arte ou curadores, com os quais eles poderão construir uma primeira rede social informal.

As vidas dos artistas podem, portanto, tornar-se uma soma de idas e vindas, que implicam em viagens, flexibilidade e adaptabilidade a novas– e em constante renovação – condições de criação. É isso que o projeto Vaivém pretendia questionar desde sua conceitualização, desenvolvida por quatro artistas brasileiros (Iara Freiberg, Kika Nicolela, Renata Padovan e Ana Teixeira) em colaboração com o SESC Pinheiros. Ao convidar cada um(a)dos(das) artistas para que se encontrassem em uma residência no exterior (a sul-africana Thenjiwe Nkosi, o japonês Nobuhiro Ishihara, a turco-alemã Nezaket Ekici e a chilena Claudia Vasquez), o objetivo era principalmente interrogar, individual e coletivamente, no que implicavam estas novas condições de vida e de trabalho dos artistas envolvidos neste projeto,também durante um dia de seminário aberto a outros artistas e curadores, realizado em 24 de agosto pelo crítico de arte brasileiro Josué Mattos, ele também um participante da residência. Nos relatos de experiências expostas no seminário, foram questionados os naufrágios ou, melhor dizendo, a incapacidade de criar em algumas condições de residências – os artistas não encontraram respostas para as situações de criação, inéditas para eles– como situações de surgimento de novas perspectivas de trabalho (através do conhecimento de outras situações geopolíticas, por exemplo) e adaptações de projetos artísticos específicos para contextos políticos e sociais muito diferentes em comparação com os países de origem dos artistas (por exemplo, a definição e ocupação do espaço público).

Em todos os casos, surgem imediatamente para os artistas em residência as seguintes perguntas: como habitar o espaço da residência, como encontrar o seu lugar, como motivar o arbitrário em que consiste todo o ato de criação, especialmente em um ambiente desconhecido? No enfoque da Vaivém, estas questões valem tanto para os artistas epara os críticos de arte estrangeiros quanto para os artistas e os críticos de arte brasileiros, porque a residência Vaivém envolvia desde o início relatos ao mesmo tempo individuais e coletivos no trabalho, uma vez que todos nós compartilhávamos o mesmo espaço de ateliê e destinávamos nossos trabalhos a uma exposição coletiva no próprio local da produção. Tudo isso sob a forma de um ateliê aberto aos visitantes individuais e a grupos escolares acompanhados por professores. Enfim, os espaços de ateliê e de exposição, concebidos especialmente pela arquiteta Bartira Ghoubar, inspirados nos trabalhos e nas práticas dos artistas convidados, determinaram em parte os modos de habitação dos lugares, tanto para trabalhar quanto para expor. Esta associação singular e experimental entre criação, exposição e transmissão em um só lugar, durante quatro semanas de trabalho intenso, reforçou o peso das questões habituais dos artistas em residência, tanto para os artistas brasileiros quanto para os convidados estrangeiros, além do tempo necessário para o conhecimento e a descoberta de cada um, tanto de sua personalidade quanto de seu trabalho. As adaptações necessárias de cada um a essas diversas contingências, apoiadas pela ajuda à produção, empreendida por Valeria Prata, sua produtora e seus colaboradores,forneceram, para a maioria dos artistas, respostas artísticas ao contexto, e isso em diversos planos, do mais próximo ao mais distante: a arquitetura dos lugares ocupados (Iara Freiberg, Claudia Vasquez ), a interação com os visitantes, grupos escolares e professores (Nobuhiro Ishihara), o encontro com os outros artistas (Ana Teixeira), o questionamento sobre as condições e os efeitos dos deslocamentos(Renata Padovan, Kika Nicolela), a miscigenação de cultura e de culto (Nezaket Ekici), as trocas geopolíticas (Thenjiwe Nkosi).

Algo da ordem do site specific surge então como um espaço comum de reflexão sobre o que motiva o surgimento de obras no contexto das residências, e da Vaivém, em particular. Quando chegamos a um local desconhecido, o que imediatamente se destaca é a arquitetura específica deste, e isso pode constituir um motor óbvio e necessário para qualquer artista cujo trabalho sempre envolva as relações entre arquitetura e pintura, como é o caso de Iara Freiberg, cujo trabalho se inspira na arquitetura existente;a marca, a revela e a transforma através de um processo de espacialização radical – abstrato e geométrico –da pintura. Outra radicalidade, vinda da arte conceitual, está no trabalho de instalação tipográfica de frases de Claudia Vasquez, na parede contrária ao espaço da exposição e sobre as janelas que delimitam o espaço de acesso gratuito à internet do Sesc. Embora o desdobramento pictórico de Iara Freiberg pareça questionar e importunar a estabilidade perceptiva do espaço construído, as frases de Claudia Vasquez incutem um sentimento de instabilidade do sujeito e de impermanência das coisas que o rodeiam.

De um modo mais relacional, Nobuhiro Ishihara aproveitou os encontros diários com grupos escolares para interagir com eles e correr o risco de incorporar em um amplo desenho mural amostras de seus desenhos no processo de serem engolidos pelo Deer-Man, um personagem recorrente em sua obra. Esta economia da doação, no sentido antropológico – dar, receber, dar –, encontra alguma ressonância nos cinco retratos e no autorretrato de Ana Teixeira, os quais refletem suas interpretações de respostas para as perguntas que ela havia endereçado aos convidados estrangeiros. Isto resulta em desenhos alegóricos, na invenção de um simbólico (do que compartilham também os desenhos de Nobuhiro Ishihara), ao mesmo tempo enigmático e atento às características dos retratados. A instalação sonora de Renata Padovan também se estabelece baseada em respostas a questões endereçadas aos outros, e na ocorrência sobre aquilo em que implicam as idas e vindas e deslocamentos. O resultado é uma complexa instalação de fragmentos de palavras em diversas línguas, indecifráveis ​​em sua totalidade para aqueles que não dominam de uma só vez o português, o alemão, o francês, o espanhol, o inglês e o japonês, tudo isso introduzido por um falatório envolvente de um comerciante da vizinhança.

Estar em residência, em qualquer lugar, é também descobrir as especificidades culturais do contexto e questionar os diálogos, as trocas possíveis entre o país de origem e o país de acolhida. Desta forma, uma das três realizações de Nezaket Ekici consiste em uma hipótese de túmulo familiar que faz um híbrido de cultura e culto muçulmanos e cristãos (códigos simbólicos das formas, dos signos e das cores), em conexão com a dupla cultura do casal formado pela artista e seu marido, em consonância com o que a instigou nos cemitérios de São Paulo, onde os túmulos testemunham as miscigenações culturais que ocorrem na sociedade brasileira. Thenjiwe Nkosi, por sua vez, foi em busca das ligações geológicas, políticas, culturais e estéticas que existiram entre o Brasil e a África do Sul, desde sua ligação geológica dos tempos pré-cambrianos à influência da arquitetura modernista brutalista brasileira sobre a arquitetura segregacionista do apartheid. Como Nezaket Ekici, Thenjiwe Nkozi realiza pela primeira vez seu trabalho em três dimensões durante a Vaivém, testando, no seu caso, a hipótese de uma dimensão lúdica pela manipulação tátil dos espectadores.

A proposta de Kika Nicolela é, a priori, a menos site specific de todas as criações apresentadas ao final da residência, uma vez que ela envolve questões que têm relação, em sua base, com as motivações da Vaivém. A visão de nuvens, a partir de um avião, remete aos momentos de transição entre duas situações da vida e da criação para a artista, a um certo estado de flutuação psíquica, de espera e de disponibilidade ao que poderá surgir em um novo lugar. Quanto ao propósito dos protagonistas, eles traduzem um trabalho ao mesmo tempo de construção e de desconstrução dos discursos de si, sobre si e sobre o outro, tornando instáveis os limites ​​entre retrato e autorretrato para representar o caráter instável das identidades.

Essa instabilidade de identidade, sua mobilidade, sua plasticidade, remete às questões essenciais que ocupam todo o indivíduo que se questiona sobre sua identidade, seu lugar no mundo, sobre um plano tanto físico quanto ontológico, tanto social quanto cultural, tanto político quanto estético. São questões que adquirem um grande peso para todos os indivíduos dépaysé [deslocados], e que todos os artistas da Vaivém viveram e traduziram em seus projetos em um momento ou outro de sua condição de deslocados, de seu processo de adaptação a uma nova situação, da execução e na exposição de suas propostas, que são como resposta ao mesmo tempo tanto às especificidades da situação quanto às questões de identidade que os habitam.

Tristan Trémeau

(traduzido do francês por Renato Rezende)

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